José Mário Branco: Uma vida dedicada à música e ao resto…

Foram momentos únicos aqueles que se viveram no Centro Cultural Norberto Tavares. Músico, compositor, produtor e arranjista, Zé Mário, como é tratado por imensa legião de amigos e admiradores, falou de música e de lutas, de ruturas e de esperança

 

Com três anos de idade, o pequeno Zé Mário optou, precoce e com uma daquelas paixões inexplicáveis, pelo caminho que o viria a tornar mais reconhecido. A música entrou-lhe pela vida adentro e nunca mais dela saiu. Após 50 anos de carreira musical (feitos em dezembro de 2017), José Mário Branco continua a ser referência no mundo das artes e no resto, pelo seu legado, pela sua conduta e pela integridade com que tem percorrido os caminhos desta vida e da história mais geral da luta pela liberdade.

A história desse primeiro momento conta-se em poucas palavras: num daqueles almoços de domingo, em casa de uma tia, os pais apanharam-no agarrado ao aparelho de rádio, muito lacrimoso, ouvindo um quarteto de cordas. “O que estás a fazer”, inquiriram-no. “Quero toca(r) i(s)to” - logo atirou, para espanto dos progenitores. I(s)to era um violino… E foi, assim, que tudo começou.

José Mário Branco esteve na última terça-feira, 24, em Assomada, para falar da sua vida e das vidas mais gerais de todos nós, tendo por pano de fundo as Comemorações do 25 de Abril de 1974, os caminhos de liberdade que, como selo indelével, marcaram para sempre o nosso querer coletivo e a vida de milhões de pessoas que têm em comum a língua portuguesa. Um momento alto, de grandeza sublime, que teve como palco o Centro Cultural Norberto Tavares. Uma Tertúlia moderada pelo ex-jornalista António Alte Pinho que, anos atrás, entrevistou José Mário em Portugal e, de igual modo, moderou uma tertúlia, nesse país, que teve como convidado o cantautor (cantor e autor).

A cantiga é uma arma

“Não foi de pequenino que comecei a fazer canções, isso começou em Paris, e esse exílio durou 11 anos”, explicou José Mário Branco. “Fugi em 63 e, depois, voltamos em 74, quando foi a Revolução de Abril”, sublinhou.

Com uma tragetória impressionante no mundo da música, mas também no teatro e no cinema, enquanto compositor e ator, atualmente Zé Mário (como é tratado por uma legião de amigos e admiradores) está por opção retirado dos palcos, mas continua a trabalhar enquanto produtor musical, compositor e orquestrador.

A tertúlia, porém, centrou-se mais na sua circunstância de cidadão, de resistente anti-fascista de de ativista de várias causas a que se entrega desde os remotos tempos da candidatura do General Humberto Delgado às eleições de 1958 (derrotado por uma “chapela” do regime colonial-fascista).

Guerrilha discográfica

“Ronda do Soldadinho” e “Mãos ao ar” iniciaram a tragetória de José Mário Branco na edição discográfica, através de um single clandestino passado por “debaixo da mesa”, cuja produção foi suportada por contributos financeiros de vários amigos. Em Paris – e por essa Europa fora -, o cantautor subiu aos palcos improvisados dos pequenos concertos para operários e exilados portugueses e, mais tarde, foi voz ativa no histórico Maio de 68, que inundou a França e o mundo de uma nova esperança.

A cantiga é uma arma, e Zé Mário usou-a sempre para levar a mensagem do que era preciso, em cada momento, em cada lugar, transportando um cadinho de esperança e alento. Contrariando a censura, numa ação de “guerrilha discográfica”, o compositor fundou uma outra forma de estar na música e na vida, através da edição clandestina de discos comprados antecipadamente. Só a Portugal, através de mãos amigas, chegaram três mil exemplares da edição do single clandestino.

Não à guerra colonial

“A guerra começa abertamente em 1961, em Luanda, em 61 eu ainda não tinha feito 19 anos, e começa a haver a chamada em massa de jovens para a tropa, e começa a haver entre nós a discussão: ‘o que é que se faz?’”, disse Zé Mário, acrescentando que “mesmo uma parte importante da oposição ao regime fascista não tinha posições claras sobre a questão colonial”.

José Mário Branco salientou: “nós eramos muitos milhares a precisar de resolver este problema, e a nossa atitude era muito de ‘não queremos isso’, e os que estavamos com alguma ligação ao Partido Comunista Português, recebemos uma diretiva do partido que achava que os militantes comunistas deviam ir para a tropa, deviam ir fazer a guerra e fazer o trabalho político na frente de guerra”. Uma posição liminarmente rejeitada por Zé Mário.

“Repugnava-nos o simples facto de estarmos com uma espingarda na mão à frente do nosso irmão também com uma espingarda na mão”, disse o cantautor, acrescentando: “quando se está numa guerra, frente a frente com uma espingarda na mão, não há grande espaço para conversar, quem atira primeiro é que se safa”. Por essas razões, Zé Mário e vários jovens portugueses de então recusaram-se a “participar nesse crime que era a guerra colonial”.

“Não vamos colaborar, nem um milímetro, com o colonialismo, não vou discutir nem um segundo o direito à autodeterminação do meu irmão africano, nem vou à tropa”, foi a atitude adotada. Foi assim que José Mário Branco abalou para Paris no ano de 1963, estava a guerra colonial praticamente no seu início e terminando apenas onze anos depois, quando a Revolução dos Cravos irrompeu ao primeiros alvores do dia 25 de Abril.

Estranha coincidência: foi um estudante nacionalista exilado na capital francesa que ajudou José Mário Branco nos primeiros dias, retirando-o das ruas onde teve de dormir ainda algumas noites porque o contacto que tinha em Paris não se encontrava em casa.

Ruturas

Crente, ativista e dirigente da Juventude Católica, José Mário Branco cedo se desiludiu com a Igreja Católica, então, um dos sustentáculos do regime colonial-fascista. Uma desilusão contudo, que não o afastou de uma das suas referências: Jesus de Nazaré.

“Eu tinha uma visão, não do catolicismo, do cristianismo, que nunca perdi. A história daquele homem, há mais de dois mil anos, é espantosa. Uma história onde nos aparece a radicalidade daquele homem. Se repararem bem, a história de Jesus de Nazaré, aquilo que se consegue perceber através daqueles livros, ele está contra as instituições todas daquele tempo, do lado do império romano e do lado dos judeus”, relembrou José Mário Branco as razões que o levaram a romper com a Igreja.

Segundo o cantautor, Jesus de Nazaré “vem partir a loiça toda”, e acrescenta: “é natural que eu tenha aberto os olhos para essas questões e perceba que a Igreja Católica está toda feita com o regime fascista e que isso não era nada cristão”. Para Zé Mário, a atitude da Igreja “não tinha nada a ver com aquele homem espantoso de que eu gosto tanto, que pregava a luta pelos princípios, a luta pelo amor” e “o amor enquanto salvação”.

Ironizando, José Mário Branco disse: “saltei diretamente para outra igreja, que era o Partido Comunista Português”. Essa era, ainda segundo o cantautor, “a única maneira de fazer qualquer coisa, não havia mais nada”. Uma “igreja” que, entretanto, viria também anos depois a abandonar, precisamente pela posição do partido quanto à guerra colonial. Antes, porém (em 1962) viria a ser preso pela PIDE (a polícia política) pelo seu envolvimento no movimento estudantil, que reivindicava a constituição de associações de estudantes no ensino secundário, uma intenção proibida pelo regime salazarista.

Justificando a sua ausência dos palcos e a sua reduzida produção discográfica, “porque não tenho nada para dizer”, Zé Mário disse ainda que as canções que tornou públicas já não são suas, “são de toda a gente”, como “filhos que temos e seguem as suas vidas”. Por isso, o cantautor está-se “borrifando” para os direitos autorais. “Podem fazer o que quiserem com as minhas músicas, a comunidade está aí para julgar".

José Mário Branco: música e luta…

José Mário Monteiro Guedes Branco, nasceu a 25 de maio de 1942, na cidade do Porto, dedicando-se à atividade musical desde 1963. Filho de professores primários, cresceu entre o Porto e Leça da Palmeira, tendo sido muito influenciado pelas vivências e pelo ambiente desta pobre vila piscatória.

Frequentou o curso de História na Universidade de Coimbra, que interrompeu por razão da sua militância política contra o regime colonial-fascista de Salazar, tendo sido ativo militante e dirigente da Juventude Católica e, mais tarde, militante do Partido Comunista Português, que abandonou por não concordar com a posição da direção comunista sobre a guerra colonial. Antes de abandonar o PCP foi preso pela PIDE (em 1962), exilando-se no ano seguinte em Paris (França), e regressando a Portugal no final de abril de 1974, poucos dias após a Revolução dos Cravos.

Em Portugal, fundou o Grupo de Acção Cultural - Vozes na Luta! (GAC), com o qual gravou dois álbuns.

Como cantautor e responsável por arranjos musicais, José Mário Branco é autor de uma obra singular no panorama musical português. Entre música de protesto, fado, marchas populares, temas de jazz e outros estilos musicais, Zé Mário tornou-se conhecido por álbuns como “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. “Margem de certa maneira”, “Ser solidário”, “A Noite”, “Resistir é vencer” e o emblemático single “FMI”, entre outros.

José Mário Branco tem trabalhado com artistas de grande relevo na música portuguesa como José Afonso, Sérgio Godinho, Luís Represas, Fausto Bordalo Dias, Janita Salomé, Amélia Muge, Os Gaiteiros de Lisboa e, mais recentemente, Camané, com quem colabora como produtor. Mas, também, com o músico luso-caboverdiano do hip-hop Chullage. Igualmente, compôs e cantou para teatro, cinema e televisão, tendo, ainda, integrado o elenco de A Comuna – Teatro de Pesquisa.

Em 2006, com 64 anos, José Mário Branco iniciou uma licenciatura em Linguística, na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, terminando o 1º ano com média de 19,1 valores, e sendo considerado o melhor aluno do seu curso, mas acabou por desistir considerando que o curso não lhe acrescentava nada e decidiu continuar os estudos de linguística de moto próprio.

Em 2009 regressou aos palcos para concertos em Lisboa e Porto, com “Três Cantos”, juntando-se a Fausto Bordalo Dias e Sérgio Godinho, com quem trabalha desde há várias décadas.

 


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