A surpreendente viagem de Lourenço Pina pelo mundo das letras

Aqui se levanta o véu sobre o percurso de construção literária de um homem de 62 anos que, tardiamente, descobriu a sua vocação de escritor que nada faria prever. Em “Presente do Destino”, o domínio da língua portuguesa e da técnica de escrita literária são tão evidentes como surpreendentes

 

Nada faria supor que alguém sem qualquer percurso pelo mundo das letras viesse, um dia, a ter a ousadia de publicar um romance, para mais logo ao primeiro livro.

Por isso, não deixa de ser surpreendente que o técnico agrário reformado Lourenço Pina tenha enfrentado a ousadia, com o fulgor de um jovem de 62 anos, navegando à bolina pelo fascinante oceano das letras, iniciando-se, precisamente, naquele que é um dos mais exigentes géneros literários.

Só anos consecutivos de leituras e uma vocação larvar pela escrita podem justificar a ousadia que se traduz neste “Presente do Destino” que esta quarta-feira, 27, foi apresentado ao público que acorreu ao Centro Cultural Norberto Tavares.

Sem pretensões, vaidadezinhas ou bazofarias, o certo é que Lourenço Pina, com a simplicidade e a sabedoria que lhe deram os caminhos desta vida, sempre em contacto com a trabalhadora gente do campo, apresenta-nos uma obra escorreita, uma escrita limpa e um notável domínio da língua portuguesa e da complexa técnica da escrita literária.

São coisas que acontecem, há gente (talvez bafejada pelo manto protetor dos antigos deuses do Olimpo) que se nos apresenta, assim, para nossa surpresa e regalo de leitura. É o caso de Lourenço Pina, que tinha desde sempre um escritor na sua interioridade mais profunda e que só o descobriu (como nós, aliás) na bonita circunstância de sexagenário.

Em “Presente do Destino” é o mundo rural, vivenciado décadas atrás, que se nos apresenta, numa escrita simples, desvendando tradições, costumes e rituais, alguns deles em desuso, que nos ensinam a conhecer melhor este povo e aquela estranha chama que é o ADN das gentes do interior de Santiago. E é, ainda, uma obra que celebra o amor à terra deste foguense filho adotivo de São Lourenço dos Órgãos.

Como o próprio autor explicou aos jornalistas, «“Presente do Destino”, como o próprio título indica, não só retrata o percurso do homem, mas traz consigo a história da vivência e convivência, sobretudo da ilha de Santiago. Portanto, recua um pouco em relação ao tempo, desde o tempo da fome de 47 e também o desdobrar do homem caboverdiano, sobretudo santiaguense, em vários ofícios para poder equilibrar-se com o tempo, exercendo várias funções para o sustento da família».

As palavras de Lourenço Pina, singelas como a sua relação com o mundo, só não explicam esta surpreendente revelação de um escritor de primeira água, nem poderiam. Para se perceber o fenómeno haverá que mergulhar nas quase 140 páginas do romance, que agradavelmente se lê sem cansaço e sem vontade de despregar os olhos.

Particularidades, pensamos que inéditas no país, é a edição em braille deste “Presente do Destino” e a intenção do autor em produzir uma edição em áudio, que apenas aguarda uma oportunidade de financiamento.

Lourenço Pina não se fica por aqui, já que é sua intenção avançar no próximo ano com a edição de uma outra obra. O nome já está escolhido: “Memórias Reveladas”, na linha narrativa do primeiro livro, onde os heróis do romance são gente simples do campo deste interior de Santiago, e onde pretende dar um particular destaque à tradição da Tabanca, lado a lado com o sofrimento, as vivências e o heroísmo deste povo guerreiro.

No lançamento de “Presente do Destino”, a apresentação do livro esteve a cargo de Henrique Varela e de Hermínia Curado.

 


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