Unidos pela língua e pela luta

Pela língua e pela luta, numa unidade a favor da liberdade, contra o colonial-fascismo e a ditadura salazarista-marcelista, portugueses, angolanos, guineenses e caboverdianos comeram o pão que o diabo amassou no Campo de Concentração do Tarrafal. Memórias recuperadas por Mário Lúcio Sousa no romance histórico “O Diabo foi meu Padeiro”

 

O Campo de Concentração do Tarrafal, também conhecido como “Campo da Morte Lenta”, recebeu várias gerações de portugueses, de angolanos, de guineenses e de caboverdianos, unidos pela língua e pela luta contra o colonial-fascismo e a libertação dos povos.

 

Este é um dos traços comuns das intervenções de Mário Lúcio Sousa e de António Alte Pinho, respetivamente, autor e apresentador do romance histórico “O Diabo foi meu Padeiro”, levado à estampa pela editora portuguesa D. Quixote, que na última sexta-feira, 06, foi dado a conhecer ao público de Assomada.

Apesar da chuva, público não arredou pé

Ao Centro Cultural Norberto Tavares acorreram dezenas de pessoas, a maior parte alunos e alunas dos liceus Amílcar Cabral e Napoleão Fernandes, que com uma particular atenção ouviram as palavras do autor e apresentador, e vibraram ao som de Ilha de Santiago, um tema de Mário Lúcio magistralmente interpretado por Naty Martins e acompanhado à viola por David Rocha.

Mário Lúcio Sousa trouxe a chuva consigo para Assomada, o que eleva a outro nível a sua presença, como se alguma circunstância transcendente o tivesse acompanhado, mesmo assim não fazendo desmobilizar um público que, do primeiro ao último momento, não arredou pé, deslocando-se do quintal do Centro Cultural para o telheiro lateral e não perdendo nunca a atenção pelas palavras ditas. O que já de si, tratando-se de um público muito jovem, é extraordinário.

Um livro verdadeiro e exato

Visivelmente emocionado com a presença dos jovens e de dois sobreviventes do “Campo da Morte Lenta” – “Toco” e Gil -, o anterior Ministro da Cultura de Cabo Verde referiu que o livro decorreu de uma grande pesquisa, “para ser verdadeiro e exato”, tendo optado por “pelo romance, que normalmente é ficção, mas onde todos os personagens são reais”. Uma obra, aliás, que faz de “O Diabo foi meu Padeiro” o primeiro romance que fala sobre a história do Campo de Concentração do Tarrafal.

“Seus nomes, seus apelidos, onde é que eles nascem, data em que nasceram, data em que foram presos, data em que morreram e data em que foram libertados”, o livro está recheado de vivências e histórias verdadeiras que nos prendem à leitura e nos fazem perceber o regime de terror que, durante longos 48 anos perseguiu, humilhou e privou de liberdade povos inteiros, unidos pela língua, mas também pela luta.

Homenagem a todos que deram a sua vida pela liberdade, numa altura em que passam 45 anos sobre o encerramento do campo, Mário Lúcio sublinhou “a vida difícil” dos prisioneiros, “mais difícil até do que poderemos imaginar”, dando como exemplo os “32 portugueses que morreram lá”.

“O livro – referiu, ainda, o autor – conta a história do campo de Concentração do Tarrafal com os nomes jurídicos e eufemísticos” de todos os que passaram por lá (portugueses, angolanos, guineenses e caboverdianos), e viveram num espaço que encarcerava, isolava e matava os que ousaram lutar pela liberdade.

Mário Lúcio não cabe neste acanhado planeta

Reportando-se a uma amizade “de quase uma década” com Mário Lúcio, António Alte Pinho relembrou as palavras ditas pelo autor anos atrás, que caracterizam a sua personalidade e dimensão intelectual e humana. “Disse-me um dia o Mário: Viver no planeta mais pequeno do sistema solar e confinar-me a uma esquina, seria muito triste’”.

Pegando nas palavras do autor, o apresentador da obra salientou que “Mário Lúcio Sousa é, efetivamente, uma figura que não cabe no acanhado embrulhar deste planeta, está para além dessa circunstância, atingindo uma dimensão que, sem exagero, poderia definir como cósmica - tal a profundidade do seu pensamento e a espiritualidade que atravessa o seu ser mais profundo”.

Bestialidade, indecência e falta de caráter

Segundo António Alte Pinho, “a bestialidade, a indecência de conduta e a falta de caráter, germinavam num regime que cultivava a iniquidade, só assim sendo entendível a existência do campo de horrores que subjugou várias gerações de homens a comer o pão que o Diabo amassou, uma máxima tão bem expressa no título da obra”, salientando que “pela narração dos três Pedros que nos contam, em momentos e épocas diferentes, o martírio vivido por quem apenas havia cometido o crime de lutar pela liberdade, se pode perceber a natureza mais profunda do regime colonial-fascista que oprimiu e humilhou várias gerações, de diversas latitudes, no seu reinado de terror de 48 anos.”

Ainda segundo o apresentador, “’O Diabo foi meu Padeiro’ atravessa toda a história do Campo de Concentração do Tarrafal e do regime de horrores que foi a ditadura salazarista-marcelista, descrevendo as páginas mais negras do colonial-fascismo e, numa altura em que se assinalam os 45 anos do encerramento do “Campo da Morte Lenta”, juntam num abraço cúmplice os povos de Cabo Verde e Portugal, prolongando a cumplicidade de um trajeto comum com os povos de Angola e da Guiné-Bissau”, sublinhou António Alte Pinho.

 

 


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